Seis motivos para pré-universitários pensarem no futuro

Carlos Teixeira
Futurista e jornalista

O que todo novo universitário vai encontrar no futuro, quando estiver formando lá para o ano 2022? Respostas para a questão são encontradas no estudo “Jovens e Universidades”, do projeto #designersdofuturo, que mapeou seis grandes forças do mercado de trabalho nos próximos anos.

Há variáveis capazes de gerar ameaças extremamentes impactantes sobre o sonho dos futuros recém-formados, que estão escolhendo seus cursos agora, nos exames de seleção das escolas públicas e privadas. Mas existem grandes mudanças que podem, e devem, ser encaradas como oportunidades por quem se preparar para as transformações que estarão ocorrendo em todos os segmentos da sociedade.

Quem se formar no início da próxima década encontrará um mercado de trabalho repleto de desafios invisíveis atualmente. Verá um período profundamente tecnológico, informal, incerto e inovador. Uma nova realidade, marcada por saltos exponenciais de inovações. O domínio da tecnologia e mudanças sociais, econômicas e políticas estão impondo um panorama completamente diverso do que viveram os seus pais e avós. Competências, habilidades e atitudes diferentes serão demandadas.

Confira as seis forças do mercado de trabalho do início da década 2020:

Tecnologias no comando

Todas as profissões estarão, de algum modo, afetadas profundamente pela evolução das tecnologias. Em qualquer área de conhecimento e da prática. O mundo estará vivendo um momento de maturidade plena de inovações como inteligência artificial, internet das coisas, robótica, automação, impressão 3D, realidade virtual e computação cognitiva. Biotecnologia e nanotecnologia.

Haverá mais coisas virtuais, desmaterializadas, conectadas, inteligentes, interativas, convergentes e integradas em redes de comunicação. A tecnologia invisível como a luz. Profissões baseadas em rotinas já serão profundamente afetadas, assim como aquelas com algum nível de insalubridade. E mesmo as tradicionais.

A tecnologia vai afetar até mesmo o trabalho do médico. A inteligência artificial associada à internet das coisas fará o trabalho de diagnóstico e recomendação de tratamentos. Nanorobòs possibilitarão a cura de doenças. A integração de empresas a redes inteligentes de governos - incluindo sistemas de cobrança e controle de tributos - elimina o papel do contador tradicional. Cálculos estruturais serão feitos com maior competência e agilidades por sistemas.

Era digital do sistema produtivo

Serviços e produtos transitam pela internet. Fábricas, por exemplo, transferirão a produção de peças de reposição para proprietários regionais de impressoras 3D. Quem podem ser intermediários ou, mesmo, donos de veículos ou de aparelhos. Diagnósticos de doenças podem ser feitas de casa, assim como o monitoramento dos pacientes. Professores de história ou filosofia portugueses para brasileiros. Ou gregos, com tradução simultânea.

A informalidade, a descentralização e a desregulamentação crescente do mercado de trabalho, além do próprio avanço das tecnologias, levará ao aumento crescente das atividades em casa, o “home office”. Até por uma questão de concorrência: com abundância de concorrentes, quem tiver o menor custo sempre leva vantagem.

A busca por modelos de negócios inovadores estará em efervescência. Economia criativa, produção compartilhada e descentralizada também estarão cumprindo função como geradoras de oportunidades.

Novas lógicas das profissões

Os “profissionais smartphones”: os novos trabalhadores sairão das universidades com um maior número de habilidades, capazes de assumir funções que eram atribuídas a outras pessoas. Como o administrador de empresas, capacitado a desenvolver os seus próprios sistemas de monitoramento e análise de negócios.

Na odontologia, por exemplo, profissionais ciborgues terão incorporado novas tecnologias. A impressão 3D será absorvida nos consultórios, eliminando a necessidade de laboratórios de protéticos.

Ou seja, os recém-formados serão testemunhas da recombinações. Funções, habilidades, tecnologias estarão cada vez mais integradas, redirecionando a lógica atual das especialidades, que tenderão à substituição.

Recombinar conhecimentos e habilidades passou a ser essencial. O acesso ao conhecimento foi nivelado. Um recém-formado tem, em 2021, tanto acesso às informações quanto os profissionais mais experientes.

Universidades em busca de atualização (atrasada)

Os recém-formados tendem a perceber que suas universidades ainda tentam recuperar o tempo perdido no processo de adequação às profundas transformações da sociedade e do mercado de trabalho. O atraso torna secundário, inclusive, o diploma que demandou tanto esforço do estudante.

Algumas modificações já terão começado. Como a mudança da proposta atual de ensino, baseada em disputa por cursos, passando para áreas de conhecimento. Cada aluno constrói, durante o percurso, a sua formação específica.

Por exemplo, a estudante de medicina que opta pelo desenvolvimento de tecnologias de memória, imaginando que fará cirurgias de expansão de memórias. Ou o estudante de veterinária que estuda arquitetura para viabilizar projetos de pecuária urbana, que utilize prédios abandonados nas regiões centrais das cidades.

A possibilidade de aulas a distância e a contratação de professores estrangeiros estará no radar das estratégias de ensino, com a valorização maior do conhecimento do que da formação. Afinal, se não haverá empregos, o importante é o investimento em sabedoria.

Crises de modelos políticos e econômicos

Os recém-formados de 2021 encontrarão ambientes político e econômico em processo de ebulição. O Fórum Econômico Mundial prevê que, nos próximos anos, a sociedade global conviverá o crescimento contínuo do desemprego e com o aprofundamento da desigualdade de renda. Além de questões climáticas e aprofundamento das disputas por água.

O cenário de ausência de resultados para problemas sociais vai reforçar o processo de questionamento não só de lideranças, mas de toda a estrutura de poder. Será o enfraquecimento da democracia representativa.

Padrões sociais mutantes

O “novo normal” das relações sociais formatadas atualmente estará se consolidando, com a geração de novos sinais sobre o futuro de médio a longo prazos. Muitos dos recém-formados sairão de seus cursos plenamente conscientes de que jamais exercerão as profissões. Aqueles que exercerem, não serão empregados. E as remunerações serão menores do que os seus pais e avós ganhavam. Muitos jamais dirão, então, que terminaram os seus estudos.

Os modelos de consumo, assim como os do trabalho, serão profundamente alterados, até porque muitos serão como as pessoas definidas hoje como os “nem-nem” -- nem trabalham, nem estudam.

Sem renda, sem atividades, muitos estabelecerão o retorno ao escambo - à troca de mercadorias por mercadorias (trabalho por trabalho). À rejeição do consumo predatório e o resgate de tradições antigas.

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