Educadores analógicos e adolescentes ciborgues digitais

Por Julia Ramalho Pinto

Sabemos que a adolescência é um período marcado por um excesso pulsional. Isto significa que o jovem, muitas vezes, não encontra palavras para traduzir o que acontece no corpo e nos pensamentos. Entregue a um impossível: ele não sabe o que dizer, o que fazer, como elaborar isto que ele vive.

No melhor dos mundos, ele encontra uma saída para seu mal-estar fazendo bom uso da palavra e da criação. A escola e os educadores antenados à inventividade, estimulam o jovem a criar a partir de seu mundo e das novas tecnologias. Vários projetos estimulam esta participação e invenção dentro das escolas brasileiras. Como uso das tecnologias, redes sociais, gravações de vídeos, estímulos a construção de textos os jovens são ouvidos na criação de novos conteúdos.

Por outro lado, sabemos que a adolescência é também período de encontrar com o risco, a transgressão e as adições. Na tentativa de encontrar uma expressão própria o jovem muitas vezes se mantém no excesso pulsional e segue num curto-circuito onde flerta e se prende ao perigo. Ajudá-lo a ver e se responsabilizar por estes riscos é papel da escola, tanto quanto dos pais. Educadores e familiares têm uma função de ajuda-los a desenvolver uma visão mais crítica sobre o mundo.

Em uma escola de uma capital brasileira, alunos do 6o ano do ensino fundamental fotografam um colega sentado no vaso no banheiro e espalham para a turma via WhatsApp. Alunos do 7o e 8o ano fazem “desafios” on-line. A prática de desafio típica dos adolescentes (“Quero ver se você é homem para fazer isto ou aquilo?”) agora é digital. Eles lançam tarefas delicadas e, às vezes, perigosas para afirmarem que estão adentrando neste novo mundo: o do jovem adolescente!

Alunos no 8o e 9o ano começam se preocupar menos em “pegar” as meninas no colégio e cada vez mais em colecionar “nudes” delas. Eles criam álbuns de fotos e comparam quem tem mais fotos nuas dessas meninas. Alunos da 4a série de outra escola compartilham na hora do recreio vídeos pornográficos no celular do colega. O celular é proibido no colégio, mas eles sabem como fazer circular as imagens, vídeos e conversas. E agora, qual o papel da escola e dos educadores diante destas ações dos alunos?

Estas são algumas das questões que os alunos ciborgues colocam. Mesmo sendo proibido, eles estão conectados e compartilham imagens e informações a todo instante. Alguns educadores ainda irão apostar na ideia que é possível desconectá-los. Insistindo nesta “lei”, desresponsabilizam a escola das ações do aluno que apenas age fora da lei.

Mas a adolescência não é isto? Ampliar limites, pulsar para além do que está estabelecido e tentar encontrar algo que possa traduzir o que se passa no mundo de dentro? Ao proibir simplesmente, a escola muitas vezes fecha os olhos para outras possibilidades de educar. A tentativa de uma certa regulação de excessos é válida, mas é longe de ser suficiente.

Uma outra proposta seria a escola se mover em direção a dar voz aos alunos. Quais os assuntos mais procurados na internet e celular? Já imaginaram se, ao invés de proibir, houvesse uma aula para se conversar sobre o que tanto este jovem se conecta? Quais os principais temas compartilhados no WhatsApp da semana? Quais desafios estão sendo colocados e quais os possíveis impactos deles? Poderia haver encontros de conversação sobre a rede, sobre as questões que eles de fato se interessam e querem saber.

A escola mais do que proibir e se isentar diante as complexas questões que as redes sociais e as novas tecnologias colocam para os jovem, deveria ser aliada em levantar questões. Poderiam, assim, se tornar aliados dos jovens nas suas buscas, ajudando-os a encontrar uma forma de conectá-los a suas próprias questões. Talvez o grande desafio das escolas e educadores de adolescentes ciborgues sejam se mover da posição de quem detém o saber sobre o mundo.

Agora, mais do que nunca, cabe aos educadores serem mediadores, curadores e questionadores desses jovens. E, ajudá-los a organizar de forma crítica as respostas das buscas feitas por eles, responsabilizando-os cada vez mais pelo impacto de suas ações.

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